AS PONTES DE MADISON? 

por Sávio Araújo
Publicada no Diário de Natal em 27/01/2004

O presidente da Fundação Cultural Capitania das Artes (FUNCARTE), o Sr. Rinaldo Barros, em texto publicado na imprensa local, intitulado Construindo Pontes, reconhece publicamente, entre outros aspectos, que o Auto de (do) Natal, dirigido pelo Sr. Moacyr de Góes, exibido no anfiteatro do campus da UFRN, nos dias 22 e 23/12/2003, não foi uma ação bem planejada e afirma que o resultado apresentado não foi, nem de longe, o desejado pela FUNCARTE.

Bravo! A capacidade de reconhecer os próprios erros é uma virtude que queremos ver em nossos gestores públicos.

Ao final do artigo, o presidente da FUNCARTE conclama os produtores culturais e artistas de Natal a derrubarem os muros e construírem pontes para o diálogo e o engajamento, num grande e patriótico esforço em nome de uma Nação Nordestina e para um projeto chamado: Festival Internacional do Folclore.

Alguma coisa neste discurso me lembrou o enredo de um grande sucesso do cinema americano: As Pontes de Madison.

O filme conta a história de Francesca Johnson (Meryl Streep), uma dona de casa do interior dos EUA, que vivia numa região muito bonita, repleta de belas e antigas pontes, mas o cotidiano medíocre de um casamento frustrado e sem perspectivas, embotava completamente toda a beleza que emoldurava a vida daquela mulher.

Porém, quando tudo parecia perdido, a chegada de um fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid (Clint Eastwood), que vem fotografar as belas pontes do condado de Madison, oferece àquela dona-de-casa  a chance de largar sua vidinha sem futuro para viver um grande e verdadeiro amor.

Seria a FUNCARTE uma heroína encastelada?

Quem seriam os sedutores Eastwoods a cruzar as pontes e livrar a nobre senhora de sua existência atormentada?

Nossa heroína teria forças para se libertar de um casamento infeliz com uma política cultural de resultados, refém do marketing barato da máquina publicitária do governo?

Então, pra quê um grandioso Festival Internacional do Folclore?

As pontes de Madison seriam apenas um adorno na paisagem? Ou uma opção para novas possibilidades?

Uma ponte é uma obra construída para dar passagem aos caminhos interrompidos.

Por que será que gestores públicos valorizam mais as pontes que os rios?

Seria mais prudente evitar ações desastrosas que interrompem caminhos, do que ficar construindo pontes sobre os estragos.

Toda cidade possui muitas nascentes culturais que precisam ser preservadas e alimentadas.

Delas correm muitos afluentes que formam grandes rios culturais.

Há que se perguntar: quem ganha com o represamento dessas manifestações culturais em mega eventos centralizados e desarticulados? As pessoas que emprestam sua alegria para a construção do evento ou os que apenas lucram com a sua repercussão?

Desprovida de responsabilidade social, uma ação cultural pode ter um impacto desastroso sobre o patrimônio humano que, a princípio, ela se propunha a divulgar. Depois de feito o estrago, só resta a deprimente travessia da ponte sobre o leito seco do rio.

Quanto à nossa heroína, no filme ela não consegue fugir de sua vidinha sem futuro e tudo que deixa para seus filhos são cartas, onde narra tudo que poderia ter sido, mas não foi.

Melhor sorte para a FUNCARTE, é o que nós desejamos.
 
 
 
 

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