O "GLITTER" DA ESPETACULARIDADE VAZIA 
Clotilde Tavares 
Publicado na Tribuna do Norte, em 17-01-2004 

Na última sexta feira saiu publicado neste jornal um artigo de Joatan Vilela Berbel sobre os espetáculos que aconteceram no final do ano passado, no período natalino, o "Auto de Natal" e o "Presente de Natal". O articulista foi Secretário da Música e Artes Cênicas do Ministério da Cultura, e estava de férias em Natal em dezembro, tendo visto os espetáculos, após os quais ficou preso de saudável indignação sobre o tratamento que se dá à cultura popular neste meu Rio Grande do Norte. 

Em linhas gerais, ele reproduz o desconforto de grande parte de artistas e intelectuais locais em relação às duas produções, com destaque para o "Auto de Natal", que transformou as margens do Potengi nas ribeiras do Capibaribe e celebrou os 404 anos da cidade com frevo pernambucano na voz da paraibana Elba Ramalho. Critica o afeto que os nossos manda-chuvas culturais dedicam ao mega-evento, à estilização da cultura popular, à "globolização" (e não "globalização" como a revisão do jornal erradamente corrigiu porque não leu o texto) no sentido de que só é bom se sair na Rede Globo. 

Fico triste de ver que por aqui por essas ribeiras - Potengi ou Capibaribe, nem sei mais - o mais importante é que um espetáculo ou evento saia "na mídia" e produza imagens belas e coloridas para serem usadas nos comerciais de TV que o governo veicula o ano inteiro. Preocupa-me o fato de que começam a se multiplicar por aqui os Bumbódromos, Sambódromos e Imbecilódromos que juntam milhares de pessoas em um mesmo e equivocado espetáculo, como o foi a Mostra de Cultura Popular no Machadinho, numa opção estética que substitui o ouro da verdadeira tradição popular pelo "glitter" da espetacularidade vazia. O professor Luiz Assunção, da UFRN, publicou na Internet um artigo lapidar sobre esse espetáculo. 

Aos que estiverem lendo e se perguntando porque somente agora estou tocando nesse assunto, respondo: esperei que alguém "de fora" falasse e o artigo do Joatan Vilela Berbel veio a propósito. Imaginem se eu fosse dizer o que ele disse e o que estou dizendo agora logo depois do espetáculo. A província se levantaria em chamas. Quem sou eu para criticar um espetáculo tão "lindo", tão "colorido", onde as pessoas que estão no palco estão tão "felizes"? 

Aqui em Natal, meu caro leitor, quando você critica um espetáculo, se expõe a um processo curioso. Se você diz que o figurino estava mal-feito, mal executado, é porque você é "frustrada"; se você fala que a cenografia não tinha nada a ver com o espetáculo, é porque você é "gorda"; se observa que a luz não funcionou, é porque você é "velha"; se a crítica é sobre o desempenho dos atores, quem critica "deve estar com inveja porque não está no palco"; e se a sua observação se refere à proposta estética equivocada, é porque "não lhe convidaram para escrever o texto". Falar então sobre o Auto de Natal, fazer qualquer crítica, iria desencadear exatamente o comentário de que eu estaria criticando porque, depois de participar durante dois anos como autora do texto, neste ano de 2003 fiquei de fora. Estaria então "despeitada" ou "com inveja", ou "destilando meu fel", ou coisa que o valha. 

Então agora, já que alguém "de fora" se colocou, e nesta terra quem é "de fora" tem mais voz do que quem é "de dentro" e vive o dia-a-dia da cidade, eu não preciso dizer mais nada já que o Joatan Vilela Berbel e o professor Luiz Assunção disseram tudo. Quanto a este último, não é artista nem produtor cultural, é apenas um professor universitário competente e sério, com um trabalho respeitadíssimo no campo da cultura popular, e coordena um grupo de estudos sobre o tema na UFRN. Para quem quiser ver ambos os artigos, acesse meu site: www.clotildetavares.com.br. 

O argumento de que "o povo gosta" não procede. Nós, artistas, intelectuais e, sobretudo, dirigentes culturais, temos responsabilidade sobre a Arte que produzimos e apoiamos. Estamos forjando um povo, uma identidade, uma memória. Precisamos honrar a nossa verdadeira cultura e esta terra onde nasceu Cascudo que, se vivo fosse, ficaria estupefato com os crimes estéticos, artísticos e culturais que se cometem em seu nome. 

Quanto a esta cronista que agora vos escreve, não sou "frustrada", nem "amarga", nem "invejosa". Minha saliva é doce como o mel, e se sou um pouquinho "gorda" isso não me incomoda muito. Quanto a ser "velha", às vezes lamento ter vivido tanto para ver o que estou vendo ser feito com a cultura desta terra. Finalizando, deixo a frase de Beaumarchais, dramaturgo francês do século XVIII: "Sem liberdade de crítica, não existe elogio sincero." 

Clotilde Tavares é escritora e professora aposentada da UFRN, e membro fundador da Comissão Estadual de Folclore 

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