MENTALIDADE DE CAMARÃO 
publicado na Tribuna do Norte de 1º de fevereiro de 2004. 

por Carlos Peixoto - Jornalista 

Que não fique dúvidas! Amo Natal, aqui nasci e não troco a minha cidade por nenhuma outra do Brasil ou Europa. Mas, volto das férias só para constatar uma certeza: a mentalidade natalense não muda, embotada pelo alumbramento provinciano que confunde os elogios às belezas das nossas praias e dunas, com a identidade cultural que vai nos garantir um futuro entre os destinos turísticos da Terra. 
Estive por Fortaleza e São Luís, em uma viagem sem pressa, de muitas caminhadas pelo centro antigo das duas cidades. Encheram-se meus olhos com o que vi, em uma e outra, e secou-se-me a esperança de Natal preservar a memória histórica/arquitetônica da sua origem e crescimento. De ver a Ribeira revitalizada, das suas ruas voltarem a ser palcos de manifestações e debates culturais. Para começar, nos falta o que tínhamos e jogamos fora: o espaço a ser preservado. Sem bairrismos e de olhos bem abertos, olhemos em volta. O que nos resta da Ribeira e da Cidade Alta, núcleos habitacionais e comerciais que originaram a cidade? 

Na antiga Rua Nova (hoje avenida Rio Branco) dois ou três casarões lá no início da ladeira do "caminho de beber" (o Baldo), um sobradinho na av. Deodoro (ameaçado por um estacionamento); na ex-rua do Comércio (hoje, Chile) o sobrado de Ferreira Itajubá (queDiogenes da Cunha Lima salvou), o antigo Palácio do Governo, as fachadas do Blackout, do Bar das Bandeiras e, lá para as bandas da antiga Vila dos Ferroviários, tem o belo prédio neo-clássico da antiga estação (a governadora já tem, sobre a mesa, um projeto para um centro cultural no local). 

Projetos como o do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, e do Programa Reviver no bairro da Praia Grande, em São Luís, exigem muito mais do que nos sobrou da antiga Natal na Natal nova da especulação imobiliária e do trade turístico. São necessários também recursos públicos, parcerias na iniciativa privada e disposição política dos governantes. Três coisas que sempre nos faltaram. 

Sem exageros. Querem um exemplo mais esclarecedor, eloqüente e indicativo desta realidade do que o fechamento da Casa da Ribeira? No coração mesmo do bairro que sucessivos governos prometem revitalizar, um grupo de artistas se reúne, faz um investimento considerável, restitui as belas formas a um casarão, promove eventos e apresentações culturais que não encontrariam outros espaços nas agendas comerciais dos grandes teatros e casas de shows... para ouvirem um não do poder público quando precisam receber umas poucas migalhas do "banquete" em que se transformou a lei de incentivos culturais. Gastou-se - a Petrobras, a CEF e o governo do Estado entraram com dinheiro vivo, a prefeitura de Natal pagou os "serviços" - cerca de meio milhão promovendo um "auto de natal" (assim mesmo, com minúsculas, apesar da grandiosidade da obra de João Cabral de Melo Neto), sem qualquer relação com nossa realidade, para negar cinco mil reais a quem realmente está preocupado em fazer cultural e arte. 

O que os responsáveis por uma política cultural (não existe, mas vamos considerar as intenções, para efeito de argumentação) disseram sobre o fechamento da Casa da Ribeira? Quantos telegramas, e-mails, cartas, ligações e recados de protestos chegaram à governadoria? Quantos atos públicos, cartas abertas, manifestações estão programadas? O inventário das respostas é o testamento definitivo do tipo de mentalidade a que me referia no início. Aliás, uma mentalidade exemplarmente resumida no parecer do conselheiro da Fundação José Augusto que considerou o projeto da Casa da Ribeira, para levar cinco mil estudantes da rede pública às apresentações de artistas locais, "mais social que cultural". 

Se for para aceitar e conviver com esse tipo de raciocínio, melhor é passar um trator sobre a Ribeira, deixar a maré fazer mangue de tudo outra vez... e instalar viveiros de camarão. 
 
 

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