NATAL E A "GLOBOLIZAÇÃO" 
publicado na Tribuna do Norte de 16 de janeiro de 2004. 

Joatan Vilela Berbel 

Acabo de chegar no Rio de Janeiro depois de uma gratificante e proveitosa estada em Natal. Do dia 22 de dezembro ao dia 06 de janeiro desfrutei dessa formidável paisagem, da brisa refrescante e principalmente da amável hospitalidade dos amigos que há muito cultivo. 

Visitar Natal, para mim, é rever amigos, aquecer afetos, ouvir histórias e ver coisas que sempre enriquecem o espírito e fortalecem a alma. Mas como visitante não posso deixar de ver as coisas e os fatos com um olhar crítico e no mínimo diferente um olhar de fora. A expectativa de quem chega de fora é de ver, provar, ouvir e vivenciar sensações, imagens, aromas que tragam a diferença, o inusitado e se possível algo extraordinário e marcante nessa experiência. 

Devo acrescentar que não sou um turista qualquer, pois tenho uma grande vivência de Brasil, ou seja, viajei por quase todos os estados brasileiros o suficiente para, mesmo no Nordeste, reconhecer o sotaque e as diferentes manifestações culturais, a culinária e a história peculiar de cada estado. 

Por isso estranhei a apresentação do espetáculo "Natal em Natal", apresentado nos dias 22 e 23 de dezembro, no Campus da UFRN. Nada do que vi nesse espetáculo tem a ver com a preciosa e delicada expressão dos "autos de natal" tão bem documentados por Câmara Cascudo, Antonio Bento e Mario de Andrade, para citar os que já li. 

Chamar de multimídia um espetáculo que se limitou a instalar telões ao fundo do palco com imagens óbvias e repetitivas que competiam com a ação do palco ao mesmo tempo em que cometia a deselegância de deixar às escuras a soprano que tão bem interpretou a "Canção Praieira" é no mínimo um exagero semântico. 

Será que as "luzes" estavam reservadas unicamente para os astros globais? 

Se o propósito do espetáculo foi o de homenagear a cidade, e, portanto a cultura local porque a contratação de dois artistas de fora que, sem questionar o talento de cada um, mal ensaiaram o espetáculo porque chegaram na véspera. 

Será que não havia um texto, no rol da produção teatral de Natal mais adequado para uma celebração do nascimento de cristo que o enterro de Morte e Vida Severina, em que pese sua qualidade como obra prima da literatura brasileira? 

Dá pra aceitar como balé aquele exercício ginástico ao som do manguebeat pernambucano? E o que isso tem a ver com o tema do espetáculo? 

E as músicas inseridas bem ao gosto do repertório de São João de Caruaru da Elba Ramalho, para tudo acabar num grande forró, para não falar em Carnaval 

Dá pra aceitar o Lázaro Ramos, um baiano, vestido de malandro carioca com ginga de jogador de capoeira repetindo maquinalmente o texto passado pelo ponto eletrônico? 

Dá pra aceitar pacificamente a tortura imposta à Dona Militana, uma cena patética que chegou a gerar uma certa impaciência do público? 

O curioso é que o diretor do espetáculo Moacir Góes, afirmou em entrevista aos jornais, que depois do espetáculo ele poderia ser considerado um "gênio ou um incompetente". Penso que nem uma coisa nem outra, apenas "multimídia" traduzindo: muita mediocridade. 

No mesmo dia do "Natal em Natal", que foi anunciado como um presente da Prefeitura ao povo da cidade, o Governo do Estado realizava o espetáculo "Presente de Natal", num palco em frente ao Palácio de Governo. 

No "Presente de Natal" a proposta do espetáculo buscava integrar as varias manifestações folclóricas da região numa estrutura de auto de Natal. Aqui o despreparo dos grupos, a ausência de uma direção profissional criou um espetáculo fraco, amadorístico com graves deturpações, pois pastoril não é circo e coco não é frevo. 

Não é o figurino que faz o bom dançarino e nem a abundância de componentes que determina a beleza de uma coreografia. Tem que haver trabalho, pesquisa, suor, comprometimento com a qualidade e acima de tudo respeito para com a tradição cultural de um povo. 

Mas o mais importante de tudo isto é a forma como o poder político, mais precisamente os órgãos de comunicação da Prefeitura e Governo Estadual, se apropriaram de tudo isso para realizar aquilo que de fato interessava: a cultura como meio e a política como fim. 

Nos dias seguintes os vários canais de TV veiculavam uma campanha publicitária com imagens do espetáculo e um texto exortando os feitos do "governo de todos". 

Os dois eventos foram realizados com recursos públicos sendo que a maior parte destes recursos foram captados através das leis de incentivo fiscal local e federal, uma tendência viciosa que vem sendo praticada em todo o país o poder público acaba se apropriando dos recursos que ele criar para incentivar a produção cultural. 

É evidente que tendo a hegemonia do poder político os detentores do poder estarão sempre em vantagem na concorrência para o incentivo aos projetos culturais um circulo vicioso que corrompe, empobrece e aniquila o artista e promove o burocrata medíocre que se institui como o grande mecenas paroquial. 

Dois eventos realizados simultaneamente com temas parecidos que geraram uma campanha publicitária que deve ter consumido uma grande soma de recursos públicos. 

É de se perguntar então: 

Onde está a tão citada e reclamada "falta de recursos para o desenvolvimento cultural" da região? 

Em tempos de fome zero não é mais interessante dar o pão antes do circo? 

Quem são os responsáveis por essa "Globolização" da cultura brasileira? 

É possível agir e reagir diante de tudo isso e de tão fortes interesses entrelaçados e coniventes? 

Vejo tudo isso com muita preocupação, pois é algo que tem se alastrado pelos estados e municípios e agora começa a ocupar o discurso do atual governo federal. 

"Bonito não era o boi como era o aboiá!", já ensinava Chico Antonio no inicio do século passado. É necessário, portanto que estejamos atentos ao fato de que artistas, intelectuais e todas as pessoas de bem que possam se unir entendam que é hora de buscar a essência, a profundidade e principalmente a ética da responsabilidade. A ética é irmã gêmea da estética. 

O boi pode ter um dono, ele é dos maiorais como cita Chico Antonio, mas os maiorais não conhecem e não sabem apreciar o "aboiá" - a alma da cultura - embora tentem se apropriar dos seus signos e transformá-los em significados do seu poder. 

A cultura sim é o fim a política é apenas um meio. 

Não há mal que sempre dure, mas para isso é fundamental que os bons se organizem e que se manifestem de forma organizada para alcançar o sucesso. A democracia não está assentada na representação da sociedade pelo poder público e sim na organização da sociedade civil e na sua liberdade de expressão. Só a diversidade pode construir a unidade, pois o resto é cinismo e mediocridade que por último acaba em autoritarismo. 

Tenho a esperança de que o idealismo e a sabedoria de Antonio Bento possam inspirar e fortalecer o espírito de luta daqueles que não estão cooptados, dos que não são medíocres, dos que não se aproveitam de sua condição de poder e fama e de forma cínica e irresponsável corroboram esse estado de coisas. 

Ainda há esperança!!!! 

Evoé Chico Antonio!!! 

Joatan Vilela Berbel Pesquisador, Consultor de Políticas Públicas para a Cultura, Ex Secretário da Música e Artes Cênicas do Ministério da Cultura. 

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