O FALSO BRILHO DO FOLCLORE POTIGUAR 
Luiz Assunção (UFRN) 
Janeiro de 2004 
 

Nos últimos anos, temos visto acontecer uma prática de evento cultural cuja marca principal está em suas apresentações espetaculares. Esses eventos vêm sendo executados sob a égide dos órgãos estatais patrocinadores da cultura. O último deles, a Mostra da Cultura Popular na Educação, foi realizado no Ginásio Machadinho, em Natal, durante os dias 28, 29 e 30 de novembro. Com o apoio do Ministério da Educação, a Mostra fazia parte do Projeto Nossa Terra, Nossa Gente, cujo objetivo era capacitar professores a repassarem conhecimentos sobre o folclore potiguar a seus alunos, propiciando, em última instância, uma contribuição para a preservação da nossa cultura. 

Desde o início, anunciava-se uma mega produção, organizando-se, no espaço interno do Ginásio Machadinho, uma estrutura composta por uma arena, um palco de vinte e dois metros, com iluminação de quinhentos refletores, gelo seco, fogos de artifício, além de uma banda para executar os temas dos folguedos. Além de todo este aparato, o espetáculo foi montado com a participação de três mil e trezentos estudantes de cem escolas da rede estadual de ensino de cinqüenta municípios do estado, cento e vinte grupos parafolclóricos e oito grupos folclóricos tradicionais. Os organizadores anunciaram a participação de vinte e cinco mil espectadores. 

Sobre esse referido mega espetáculo, algumas questões poderão ser postas: por que ele foi pensado exatamente como tal? Quais os reais interesses para a sua realização? Qual a concepção de cultura que norteia esse projeto pedagógico? Embora todas sejam importantes, neste momento, especificamente gostaríamos de refletir sobre a idéia do folclore tradicional pensado em um projeto que se propunha a “respeitar os traços culturais” do Rio Grande do Norte. Ou seja, que modelo de tradição do folclore e de uma identidade cultural potiguar se pretende passar para os alunos? 

Seria um modelo de folclore com efeitos técnicos, visuais e acrobáticos? Um pastoril-festa com palhaços televisivos? Nada lembravam do velho Faísca do Pastoril Estrela do Norte, de São Gonçalo do Amarante, por exemplo. Brincantes de xaxado com pernas de pau? Boi-de-reis empurrado sobre rodas? Onde estava a barca do fandango? Seria um modelo que cria coreografias, redefinindo os bailados e padronizando um fazer que, embora marcado, é espontâneo no seu desenrolar? Onde ficou a espontaneidade do bailado guerreiro do espontão, dançado por descendentes de africanos das comunidades negras rurais do Seridó? Seria, ainda, um modelo que estiliza as vestimentas, criando adereços e novos elementos estéticos? 

Agora, mais do que nunca, se faz importante não esquecer o ensinamento do mestre Cascudo, quando afirma que o “folclore é a cultura popular tornada normativa pela tradição”. São os costumes sociais, o habitus de um povo, a sua visão de mundo, diz respeito ao campo das experiências e vivências, construídas socialmente, tornadas significativas e articuladas no processo social em que estão inseridos, no mundo social dos brincantes. Estamos, portanto, referindo-nos a práticas culturais e suas tradições, cuja mutabilidade é implícita e é justamente essa dinâmica que a faz viva, que a faz existir. Longe de pensar numa tradição isolada, fechada em si mesma, petrificada, estamos pensando numa tradição que se renova, que tem cortes, hiatos, alterações, transformações, muitas delas sutis, mas ressignificadas. O que é fundamental é que essas reelaborações são processadas no interior do grupo, pela comunidade de brincantes e por eles concebidas. Conseqüentemente, o folclore brincado pelos grupos tradicionais é criativo e singelo e, em sua performance, interage espontaneamente com o público, sem a necessidade de animadores artificiais (Simbora!), para induzir o público a delirar ou dançar. 

Lembremos alguns exemplos. Os congos de Ceará-Mirim, interpretando de modo muito peculiar um determinado contexto vivido, transformam-se em congos de guerra, elaborando uma outra leitura da narração da nau catarineta, sem eliminá-la. A introdução de mulheres na brincadeira dos cabocolinhos acontece a partir do momento em que os meninos se negam a vestir saia para assumir o papel de porta-estandarte. O boi brincado por Dona Cecília de Extremoz não é o mesmo de Seu Manoel Marinheiro, com quem ela aprendeu, vendo-o cantar e dançar. Na sua arte de realizar a brincadeira, ela foi acrescentando elementos, sem modificar a essência do ato folclórico, fazendo com que o boi brincado seja potiguar e não amazonense. 

Onde estavam os anunciados grupos folclóricos tradicionais na Mostra da Cultura Popular na Educação? Efetivamente, qual foi a participação de Manoel Marinheiro e Chico Daniel no espetáculo? Qual a importância de Seu Cornélio Campina na araruna apresentada? Quem viu o Mestre Birico? E os congos de Ponta Negra? Esses brincantes populares sequer chegaram a ser coadjuvantes. A grande arena não foi para eles, que certamente não eram o centro do espetáculo. A eles foi destinado um pequeno espaço do palco, literalmente escondido na estrutura cênica. Aqui se reproduz o cotidiano desses brincantes: a margem, a miséria, o esquecimento. Do lado oposto, o brilho que pode ser mostrado, embrulhado, consumido. 

O centro do espetáculo foram os vários grupos parafolclóricos das escolas estaduais participantes. A questão não é pensar contra a existência destes, uma vez que a eles também cabem a releitura cultural e a criação artística, por exemplo. Mas não deve ser esse o caso dos grupos participantes da Mostra, pois estes tinham um projeto pedagógico que os deveria conduzir. Portanto, o problema está no conteúdo mostrado, desvirtuando o pensar e o fazer do folclore tradicional. E mais: mostrá-lo como se tal fosse exatamente o modelo da cultura popular potiguar. Não deve ser esse o folclore por que os alunos devem se interessar, porque é uma visão empobrecida, transfigurada, pasteurizada, que tende a uniformizar a nossa cultura. 

O mega espetáculo poderia ter sido uma “aula-espetáculo”, um projeto pedagógico em que  alunos e brincantes, mais que dividir a arena, vivenciassem um encontro de saberes e horizontes, construindo um texto da cultura potiguar. Era fundamental que a idéia inicial do projeto, a de propiciar um encontro entre o mestre e os alunos, tivesse sido mantida em suas fases posteriores. Logo, a preocupação que se apresenta é que, pensando em uma possível “invenção” da tradição da Mostra e mantida a sua concepção, o folclore tradicional potiguar venha a ser definido como um fazer folclórico estilizado (semelhante às quadrilhas juninas), transformando-se em uma espécie de carnaval dos folguedos, numa lógica dominada pelo mercado e por uma indústria cultural e turística desqualificada. Aí, os nossos alunos conhecerão, no brilho da Mostra, o falso brilho do folclore potiguar. 

Luiz Assunção é professor da UFRN e membro da Comissão Estadual de Folclore. 

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