LEIS
DE INCENTIVO SÃO UMA ANOMALIA
Jornal do Brasil - 27 de
Outubro de 2003
Especializado em patrocínio,
Yacoff Sarkovas afirma que sistema brasileiro de repasse de verbas à
cultura é pervertido
Para o consultor, o Estado
brasileiro se omite do papel de criar políticas públicas
para a Cultura
por Cláudia Amorim
Consultor especializado em
patrocínio e comunicação empresarial, Yacoff Sarkovas
concebeu e gerenciou quase uma centena de projetos nas áreas cultural,
ambiental, esportiva e social para instituições no Brasil
e no exterior. Crítico contundente das leis de incentivo à
cultura, Yacoff foi convidado pelo governo do PT a colaborar com a reformulação
do sistema. Por isso, entrou na mira de produtores e diretores de cinema
como Cacá Diegues, que em maio o acusou de defender que o patrocínio
de estatais fosse vinculado a conteúdos nacionalistas e contrapartidas
sociais.
Uma acusação
que Yacoff classifica de infundada, já que teria sido baseada no
edital de uma estatal, escrito com uma ''redação amadora''
e sem a sua supervisão. Em entrevista ao JB, o especialista afirma
que as leis de incentivo continuam a fazer parte de um sistema pervertido
de apoio à cultura. E, encarregado pela Universidade Cândido
Mendes de montar um dos cursos do MBA em gestão cultural, pretende
ensinar aos produtores que o patrocínio não precisa depender
das chamadas leis de incentivo.
- Como o senhor analisa
as leis de incentivo à cultura?
- As leis de incentivo fiscal
são uma anomalia, um distúrbio produzido no Brasil.
- Quais são as
deformidades das leis?
- Para começar, a
definição de incentivo fiscal é o uso do dinheiro
público para estimular investimento privado. No Brasil, o incentivo
fiscal não existe, porque os cofres públicos entram com todo
o dinheiro e a iniciativa privada não entra com dinheiro algum,
só repassa verbas que são públicas. O fato de o Estado
desembolsar os recursos e a iniciativa privada escolher onde gastar forma
as bases de um sistema perdulário, que se torna ainda mais grave
no caso da Lei do Audiovisual, que tem problemas sérios na definição
das deduções do imposto. O resultado é que, além
de a empresa debitar todo o dinheiro do patrocínio dos impostos
que seria obrigada a pagar, ainda consegue um desconto de cerca de 25%
deste valor do imposto de renda. Quer dizer, se o empresário repassa
R$ 100 mil para o cinema, saem do caixa do governo R$ 125 mil. É
inadmissível.
- Qual seria a solução?
- Já que a verba corresponde
a um imposto que a empresa seria obrigada a pagar, melhor seria se essas
taxas fossem mesmo pagas ao governo e o dinheiro fosse usado, com critério,
em projetos culturais de interesse público, e não ao sabor
do que interessa mais a uma empresa ou outra. Hoje, o que conduz esse dinheiro,
cerca de R$ 500 milhões por ano, para aqui e não para ali?
Lógica pública não é, é uma lógica
privada.
- Existem mais deformidades?
- As leis de incentivo causam
uma dupla perversão. Elas deturpam o mercado de patrocínio,
porque criam uma cultura entre o empresariado de que só se deve
patrocinar com verba incentivada, ou seja, com dinheiro que já teria
mesmo que ser gasto em impostos. E, por outro lado, há o problema
de que o governo, transferindo as verbas para a iniciativa privada empregar,
fica achando que já fez a sua parte e se exime de criar políticas
públicas para a cultura. Ora, cultura é uma questão
de interesse público, e, assim como existem políticas públicas
de saúde e educação, tem que haver também para
a cultura.
- Qual é a outra
perversão?
- É a que mais temo:
que o cidadão comece a criar uma consciência de que aquelas
empresas usaram o dinheiro público para fins privados, e que isso
gere um preconceito contra o patrocínio, que então passaria
a ser visto negativamente, quando espera-se que seja justamente o contrário.
- Mas, se as leis são
anomalias, essa consciência do cidadão não serviria
para mudar o que está errado?
- Poderia ser, mas tenho
medo de que essa associação entre o patrocínio e o
uso de verbas públicas para fins privados se torne arraigada e não
se dissipe com a correção dos erros.
- O ideal é que
o governo financie diretamente os projetos culturais?
- É necessário
que o poder público invista em cultura. Nenhum mercado cultural
sadio opera sem financiamento. Não faz sentido falar em corrigir
as distorções regionais das leis de incentivo. Não
há como consertar, porque as próprias leis geram as distorções.
As desigualdades têm que ser corrigidas com o financiamento direto
do governo. E esse financiamento feito pelo poder público tem que
obedecer a mecanismos de controle para que não haja nepotismo, privilégio
de grupos ou dirigismo.
- A Lei Rouanet é
ruim?
- Não, mas só
se leva em conta a parte ruim da lei, que é um de seus três
pilares. O maior pecado da gestão do ex-ministro da Cultura Francisco
Weffort foi piorar ainda mais esse viés: no início, ela previa
que a empresa deduzisse do imposto 30% da verba investida. Weffort aumentou
a cota para 100%. Mas os outros pilares da lei são o Fundo Nacional
de Cultura - que é o investimento direto - e o que prevê um
incentivo cultural real. Nesse caso, incide sobre atividades culturais
lucrativas, que recebem deduções no imposto que tornam mais
vantojoso investir em cultura do que em outras áreas. Isso sim é
um incentivo cultural de verdade, parecido com o que acontece em todo o
mundo, que torna mais vantajoso para o empresário investir em cultura
mas não tira toda a verba dos cofres públicos.
- O apego por parte dos
produtores culturais à Lei Rouanet e à Lei do Audiovisual
ocorre porque existe um medo de que, se os recursos para a cultura fossem
diretos, seria mais fácil perdê-los?
- Exatamente. E isso acontece
porque não se vê a cultura como uma questão de interesse
público, como a saúde e a educação, que são
os assuntos que costumam dominar as disputas eleitorais e de verbas. Quando
há uma ameaça aos mecanismos vigentes, os privilegiados que
dominam os canais desse sistema pervertido - por exemplo, conhecendo os
que decidem, nas empresas, o que fazer com a verba - reagem. É o
que eu chamo de grito dos incluídos. Mas esse apego se deve à
falta de informação sobre como poderia ser o patrocínio
sem as leis de incentivo, que é o que acontece nas áreas
social, esportiva e ambiental.
- Além do dinheiro
público, o senhor defende que é possível obter outras
formas de financiamento.
- Patrocínio não
tem nada a ver com incentivo fiscal. O que chamo de patrocínio real
é baseado na motivação concreta que a empresa tem
para investir no financiamento de projetos culturais. Para atrair esse
patrocínio, é preciso entender a estrutura mercadológica,
corporativa da empresa.
- Como o produtor cultural
pode aprender a fazer isso?
- O patrocínio tem
que ser entendido como uma ferramenta de comunicação empresarial,
ao lado de outras, como a publicidade, marketing direto e a promoção.
Essa motivação que a empresa tem em investir fez com que
o dinheiro empregado com essa finalidade no mundo todo crescesse, nos últimos
15 anos, de US$ 1 bilhão para US$ 25 bilhões.
- E os projetos que não
forem atraentes para os empresários?
- Esses têm que ser
financiados diretamente pela verba pública.
- Existem ainda outras
formas de a atividade cultural ser financiada?
- Além do mercado,
do Estado e do patrocínio real, feito pelas empresas, há
o investimento social privado, que tanto pode ser de fundações
quanto de indivíduos.
- As fundações
corresponderiam aos mecenas do passado?
- Sim. É preciso entender
que o dinheiro empregado por benemerência também pode ir para
a cultura. Para isso, é preciso aprender que a cultura também
é uma forma de inclusão. E, assim como existem as verbas
das fundações, também é possível que
esses recursos venham de indivíduos, que podem se sentir atraídos
a contribuir não só para o financiamento de projetos sociais,
mas também culturais.
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