CONSTRUINDO PONTES 

por Rinaldo Barros
Presidente da FUNCARTE (Fundação Capitania das Artes, que equivale à Secretaria de Cultura do Município de Natal) 

Artigo publicado na Tribuna do Norte em 22/01/04 
 

Começo confessando um defeito meu: adoro uma polêmica e não tenho medo de críticas. Vamos alimentá-las, para possibilitar a elevação do nível do debate com o objetivo de enriquecer ainda mais a nossa comunidade. O cimento dessa construção terá por base a polêmica em torno do Auto do Natal; evento que já se assemelha a um embrião de movimento cultural. Vejamos. 

Creio que é justo o espectador discordar de um espetáculo. Ninguém é obrigado a gostar de nada compulsoriamente. Todavia, apesar de indispensável, para criticar o trabalho de outrem, há que se ter informações corretas, notadamente quando não se vive o contexto do qual se fala. 

O fato é que a apresentação do Auto do Natal 2003 não foi resultado de uma ação bem planejada. Sua montagem aconteceu sob forte pressão da exigüidade de tempo e de recursos, a par de uma neurótica pressão para definir propostas, roteiros, nomes e patrocínios. 

O que foi montado não foi, nem de longe, o desejado. A proposta (do professor Marcos Bulhões) que se encontrava em análise foi substituída porque não havia orçamento para bancá-la. O risco de não haver o Auto do Natal 2003 foi real durante alguns dias. 

A proposta, por fim, realizada, de Moacyr Góes, foi fruto de muita coragem, limitação de recursos e luta contra o tempo: 17dias. 

Além do mais, nem tudo o que foi apresentado como concepção foi resultado de consenso entre o Diretor e o gestor público; algumas críticas são totalmente válidas e oportunas. Felizmente, no entanto, como sempre tem feito, o gestor público compreendeu que não deveria interferir na criação do Diretor, o qual deve ser sempre livre para executar sua obra. Quem deve julgar é o público. 

No entanto, alimentando a polêmica, alguns conceitos precisam ser esclarecidos: o Auto do Natal (do Natal, e não de Natal) é uma celebração da data máxima da cristandade, do aniversário de Jesus Cristo. E não necessariamente tem a ver com os traços culturais de nossa província denominada Natal. 

O fortalecimento da identidade cultural do povo da cidade do Natal deve ser uma luta permanente, mas não deve ser confundida com a celebração universal do natalício do fundador do cristianismo: o Natal. 

Essa compreensão pode nos ajudar em muito a iniciar um entendimento sobre o significado do que queremos quando encenamos um Auto do Natal: celebrar o nascimento do Cristo, como Esperança para toda a Humanidade; incentivar a luta contra a intolerância, pela co-existência entre os povos diferentes, pela Paz mundial; celebrar a vida que teima em resistir ainda que frente a todas as formas de violência. Mostrar o nascimento do menino-Deus como renovação da vida, "ainda que seja uma vida Severina", como queria o Poeta. Ou "ainda que sejam sobreviventes", como queria o professor Marcos Bulhões. 

Por outro lado, alguns mais afobados queriam que mutilássemos o poema de João Cabral e mudássemos o nome do rio Capibaribe para rio Potengi. Outros, sem conhecerem a obra de João Cabral, desconhecendo a força de sua poética, não compreenderam que o rio Capibaribe é uma imagem universal, qualquer rio, o rio como uma fonte da vida. João Cabral viveu grande parte de sua vida na Espanha, como embaixador. Lá ele chamava todos os rios de "rio Capibaribe". O rio de sua infância, no Recife. 

Outro ponto importante, posso estar enganado, mas estou convicto de que o fortalecimento da identidade cultural do nosso povo deve-se dar como defesa da Nação Nordestina, e que não devemos nos dividir ainda mais. Nesse sentido, tanto faz Recife, como Salvador, Natal, Campina Grande ou Mossoró; somos todos de uma mesma Nação, de uma mesma cultura; riquíssima, todavia, discriminada e ameaçada. 

Para concluir, insisto em alertar que Natal há muito deixou de ser uma província. Nossa capital é pólo de uma Região Metropolitana, aberta ao mundo, em perfeitas condições de interagir com todos os povos, com artistas de todas as culturas, e somente assim poderá construir os alicerces de uma sociedade verdadeiramente desenvolvida culturalmente. Chega de xenofobia, não há o que temer. Não existe artista "de dentro" e artista "de fora". A arte é universal. 

Nessa direção, aproveito para anunciar a proposta de realização, ainda este ano, do Festival Internacional do Folclore, evento bem maior e mais ousado que o Auto do Natal. Façam suas apostas. 

Convoco a todos a desarmarem os espíritos, demolirem os muros e construírem pontes. Vamos precisar de todo mundo. 

É assim que se constrói uma sociedade melhor. 

 
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