CARTA ABERTA À POPULAÇÃO - Espaço Cultural Casa da Ribeira encerra suas atividades. 

Publicada nos jornais de Natal em 28/01/04 
 

Esta carta aberta à população comunica o fechamento do Espaço Cultural Casa da Ribeira, que comemoraria seu terceiro ano de funcionamento em março próximo. A diretoria, composta pelos artistas/produtores da cidade Edson Silva, Fernando Yamamoto, Gustavo Wanderley, Henrique Fontes e Renata Kaiser, anuncia seu fechamento diante da realidade financeira insustentável na qual encontra-se o Espaço. 

Leia também:

- Casa encena seu drama na vida real
 
As circunstâncias que levaram os administradores a tal decisão foram as seguintes: 

1. O Espaço inaugurado em Março de 2001 foi construído com o patrocínio de empresas através das Leis de Incentivo Rouanet e Câmara Cascudo e passou a ser administrado de forma independente como uma O.N.G. sem fins lucrativos, tendo como propósito maior oferecer aos artistas locais, e de outros estados, as condições ideais para a realização de espetáculos e exposições. A sustentação do Espaço Cultural era garantida através do aluguel de pautas - taxa cobrada para o uso do teatro e da sala de exposições - sendo esta a única fonte de recursos do Espaço. Ao contrário do que se pensa, não houve nenhum incentivo financeiro, governamental ou privado, destinado à manutenção da Casa da Ribeira durante esses anos, e a diretoria não recebeu, nem pode receber, nenhum tipo de remuneração; 

2. A prática do dia-a-dia da administração da Casa da Ribeira nos revelou a dura realidade do artista local que, sem qualquer tipo de política pública que favoreça a produção artística no Estado, fica inviabilizado de produzir seus espetáculos. Mesmo diante desta dificuldade, destacamos o empenho e seriedade de muitos artistas locais que, de forma independente, realizaram grandes espetáculos nessa breve história da Casa da Ribeira, registrando um número surpreendente de 49 mil espectadores em apenas 3 anos de funcionamento. Entretanto, o número de temporadas e espetáculos apresentados mensalmente não foi suficiente para cobrir custos de funcionários, luz, água, telefone e materiais de manutenção que juntos totalizam um montante na faixa de R$ 5.000,00 por mês. Vale salientar que a bilheteria proveniente dos espetáculos, uma vez paga a pauta, pertence aos grupos e/ou artistas contratantes e não à Casa da Ribeira; 

3. Diante desta situação, o Espaço Cultural formatou projetos que fomentassem e criassem condições para os artistas produzirem seus trabalhos e proporcionassem recursos para a manutenção da Casa. Nesta linha, destacamos o projeto Cena Contemporânea, beneficiado pela Lei Rouanet e patrocinado pelo programa Petrobras Artes Cênicas 2002, que trouxe seis grupos de renome nacional para apresentar espetáculos, realizar oficinas com atores profissionais e iniciantes da cidade, e participar de debates sobre seus processos de trabalho, como forma de proporcionar uma capacitação aos grupos locais. Em 2003, outro projeto realizado foi o Cosern Musical. Beneficiado pela Lei Estadual Câmara Cascudo, o projeto contemplou doze bandas do Estado que apresentaram shows artisticamente elaborados (direção cênica, desenho de luz, concepção cenográfica e de figurino, etc.) com a obrigatoriedade de repertório eminentemente de compositores locais. Além desses, tivemos também o projeto Adequação e Manutenção do Uso da Casa da Ribeira, que foi aprovado e captado para viabilizar reparos estruturais e aquisição de novos equipamentos. Ainda destacamos a vinda de importantes artistas plásticos contemporâneos que projetaram a cidade de Natal no cenário nacional das artes visuais. 

4. No entanto, a partir do segundo semestre de 2003 começamos a nos deparar com consecutivos indeferimentos por parte da Comissão da Lei Estadual Câmara Cascudo aos nossos projetos. O primeiro deles, Ação, Arte e Cidadania, visava levar 5.000 alunos da rede pública de ensino para assistir espetáculos de grupos locais além da contratação de crianças e adolescente - aprendizes que, através de uma ação pioneira no Estado, seriam acompanhados em estágios técnicos do setor cultural. Este projeto foi reprovado pela comissão avaliadora por privilegiar "mais o aspecto social que o aspecto cultural". O segundo projeto indeferido foi o Cosern Musical 2004, que nesta versão ampliava os benefícios para os artistas classificados. Além destes, o projeto Concurso Teatral - Temporadas Potiguares, que se propunha a subsidiar grupos teatrais através de um concurso estadual, encontra-se indeferido em ata de reunião, segundo a secretaria da Comissão da Lei Câmara Cascudo, mas ainda sem um parecer final. 

Diante desta situação de falta de uma política cultural local, reprovação de projetos apresentados à Lei Câmara Cascudo e um total descaso com que as últimas administrações estadual e municipal vêm agindo com o bairro da Ribeira, que cada vez mais tem piorada a sua infra-estrutura de iluminação e segurança, a manutenção da Casa tornou-se impossível. 

Assim é que, com imenso pesar, informamos que estamos encerrando as atividades do Espaço Cultural Casa da Ribeira e esperamos por dias melhores para a história cultural do Estado do Rio Grande do Norte. 

Natal, 15 de Janeiro de 2004 
Diretoria da Casa da Ribeira 

 
 

VOLTAR AO INÍCIO  

VOLTAR À PÁGINA DE ARTIGOS 

VOLTAR À PÁGINA INICIAL DO FORUM