| Jornalista, poeta, boêmio,
Nilo Tavares nasceu em 1912, em Penedo, Alagoas, e veio ainda muito
pequeno para Recife, com os pais, o jornalista e poeta Fernandes Tavares
e Clotilde Pereira Tavares. Seus outros irmãos, todos dedicados
às letras, eram Stélio, Nabuco e Cláudio, e as mulheres
Amelina, Cândida e Luísa. Apenas Cândida ainda é
viva.
Um das coisas de que eu mais gostava, ainda adolescente,
era ouvir o relato das aventuras dele quando rapaz jovem, em Recife, aprontando
palhaçadas nos bairros da Torre e Madalena, onde morou. Através
do meu pai vinha toda aquela vida das décadas de 1930 e 1940, da
boemia, da poesia, dos encontros no bar Savoy, das histórias da
revolução de 1930.
Papai tinha apenas o curso primário. Era
autodidata em tudo o que fazia e isso para ele era motivo de orgulho. Desde
jovem fez todo tipo de coisa: foi gráfico, escreveu para jornais,
fez versos de encomenda e finalmente, como secretário da Prefeitura
de Angelim, Pernambuco, conheceu Cleuza Santa Cruz Quirino, com quem casou
em 1941.
Em Campina Grande, onde passaram a morar a partir
de 1946, foi funcionário da firma de J. Montano Leite, tipógrafo
na Livraria Pedrosa, redator das Rádios Borborema e Cariri e posteriormente
do "Diário da Borborema".
Em 1947 nasceu Clotilde (eu mesma), seguida por
Braulio (1950), Pedro (1954) e Inês (1959).
Ocupou a cadeira numero 27 do "Clube Literário
de Campina Grande", cadeira cujo patrono era Emílio de Menezes,
militou intensamente nos meios esportivos locais, não apenas como
comentarista esportivo de rádio e jornal, mas também como
admirador e eventual membro de diretoria do Paulistano Esporte Clube e
Treze Futebol Clube.
Por três vezes candidatou-se à Câmara
de Vereadores, não tendo sido eleito: em 1951 pelo PSB, em 1963,
e em 1968 pelo MDB. Na terceira tentativa, aproveitando as pichações
de "vote nulo", mandou pichar um "i" por cima do "u", ficando "Vote Nilo".
Foi quando teve mais votos.
No final dos anos 50 tornou-se secretário
executivo da Federação das Indústrias do Estado da
Paraíba, onde permaneceu vários anos, até ser convidado
para secretário da recém-criada Faculdade de Ciências
Econômicas (FACE) da Universidade Federal da Paraíba, tendo
permanecido nesta função até 1970.
Com a nomeação de Antonio Lucena
para o cargo de Reitor da Universidade Regional do Nordeste (URNe), foi
convidado para seu Chefe de Gabinete. Permaneceu nesta posição
durante três reitorados sucessivos da Universidade: Antonio Lucena,
Luís Almeida e José Figueiredo.
Aposentou-se por invalidez em 1980, após
sofrer uma trombose. Aí, dedicou-se ao seu passatempo predileto,
o charadismo, tendo sido um dos membros mais ativos da TERNOR (Tertúlia
Nordestina). Publicou, em edição independente, as coletâneas
de versos intituladas "Minha Vizinha Ivete" e "Sonetos de Natal e Outros
Poemas".
Em 25 de março de 1983 assumiu a cadeira
numero 25 da Academia de Letras de Campina Grande, cadeira cujo patrono
era o compositor Rosil Cavalcanti. Fêz parte de numerosas associações,
entre elas o Rotary Club de Campina Grande e Associação Campinense
de Imprensa.
Quando Mamãe faleceu, em 1997, ele veio
ficar comigo aqui em Natal. Durante quase um ano e meio, até sua
morte em maio de 1999, desfrutei do privilégio de tê-lo junto
a mim, já velhinho, esclerosado, esquecido das coisas.
Seus súbitos lampejos de consciência,
que por vezes perduravam alguns dias, lhe faziam recitar sonetos e mais
sonetos e contar histórias antigas.
Às vezes me confundia com sua própria
mãe.
Eu dizia:
- Não, papai, eu sou Clotilde, sua filha.
E ele respondia:
- Não! Clotilde, a minha filha, é
uma meninazinha lourinha, bem bonitinha, que quando eu chego em cada ela
põe as mãozinhas na cintura e dança contente dizendo:
"Papai chegou, papai chegou!"
Pois é essa meninazinha lourinha que lhe
manda hoje um beijo, Papai. Um beijo grande, cheio de luz, de tanta luz
quanto a luz das entrelas entre as quais o sr. hoje habita. |