| "A MARQUESA"
por Clotilde Tavares
Publicada na Tribuna do Norte,
de Natal, em 13-05-2001.
Como hoje é Dia das
Mães, nada mais justo, meu caro leitor, que eu use aqui esse espaço
para homenagear a minha mãe. Através dela, quero homenagear
a todas as mães e filhos que me lêem neste dia.
Cleuza Santa Cruz Tavares
nasceu em 1921, na pequena vila de Coxixola, município de São
João do Cariri, na Paraíba. A infância passada em fazendas,
no interior de Pernambuco, onde meu avô Pedro Quirino criava uma
meia dúzia de cabeças de gado, lhe deu valores sertanejos
que a acompanharam até o fim: honra, dignidade, destemor.
Casou-se aos 18 anos com
Nilo Tavares, que na época era Secretário da Prefeitura de
Angelim, Pernambuco. Depois de morarem em Igarassu, Recife e Jaboatão,
vieram para Campina Grande
em 1945 onde se fixaram e onde lhe nasceram os filhos: Clotilde, Bráulio,
Pedro e Inês.
Dedicou-se à casa
e à família até que todos crescemos, casamos e saímos
de casa. Foi aí que ela resolveu realizar o grande sonho da sua
vida: formar-se em Direito e advogar. Então esta mulher, que
só tinha estudado até o primeiro ano primário, aos
52 anos matriculou-se no então chamado Artigo 99 e em dois anos
fez o primeiro e o segundo grau. Prestou Vestibular para Direito na Universidade
Regional do Nordeste e passou em quarto lugar. Em 1980, com quase 60 anos
de idade, formou-se finalmente em Direito.
Um golpe do destino truncou-lhe
a carreira nascente: o meu pai teve um derrame, passando a necessitar de
cuidados intensivos e ela deixou de cumprir o ideal para atender a quem
dela precisava, como o fez durante toda a vida.
O espaço desta coluna
é pouco para falar sobre Dona Cleuza. Sem poder assumir o sonhado
escritório de advocacia, nas solitárias noites em casa, lia,
escrevia e ouvia no rádio suas músicas preferidas. Em tom
de brincadeira, inventou para si própria um título - a Marquesa,
pelo qual ficou conhecida na cidade - que usava para telefonar para os
programas de rádio pedindo as músicas dos seus cantores preferidos:
Roberto Carlos, Gilliard, Altemar Dutra. Gostava de música brega
e era assumidamente fã desse estilo.
Quando encontrava quem cuidasse
de papai, ia aos bares, acompanhada de amigos e amigas muito mais jovens
do que ela, onde tomava cerveja, cantava e se divertia. Sua mesa sempre
estava cheia de jovens e de artistas, porque ela amava o teatro e sempre
tinha atores e atrizes por perto. João Marcelino e Marcos Bulhões
a conheceram nas longas vigílias artísticas que se faziam
no Festival de Arte de Campina Grande, onde "A Marquesa" era presença
marcante.
Com ela aprendi coisas que
ainda são fundamentais na minha vida. Ensinou-me a não maltratar
os animais, a honrar a palavra dada e a me orgulhar de ser mulher e nordestina.
Com ela aprendi a rir da desgraça e das peças que a vida
nos prega. Aprendi a não levar desaforo para casa e a não
ter medo de nada. Aprendi também a ser hospitaleira, a ser solidária
e a defender quem está por baixo ou é vítima de preconceito.
Um edema agudo de pulmão
a levou em dezembro de 1997. Mas enquanto aqueles valores sertanejos que
ela nos inculcou correrem nas nossas veias, e nas dos nossos filhos e netos,
Dona Cleuza, a Marquesa, continuará tão viva como sempre
esteve. E é para ela que eu volto o meu coração e
a reverencio neste dia.
Feliz Dia das Mães,
Mamãe. |